O projeto
Mapas geopoéticos da guerra dá prosseguimento aos estudos críticos já realizados no âmbito da poesia italiana do século XX. As trajetórias individuais mostram a complexidade do impacto deste evento histórico que marca a nossa história mais recente. Para tal, foram selecionados quatro autores (Eugenio Montale (1896-1981), Giorgio Caproni (1912-1990), Andrea Zanzotto (1921-2011), Amelia Rosselli (1930-1996) que produziram ao longo da segunda metade do século XX obras que atravessam diferentes experiências e vivências de um mesmo evento histórico, que é o da Segunda Guerra Mundial. Experiências cruciais dentro e fora do território italiano, os poemas selecionados trazem marcas e dimensões do vivido da guerra e de suas consequências. Contudo, tais percursos colocados lado a lado permitem um olhar mais amplo e, mesmo quando diferem, oferecem a possibilidade de se ter mapas de como a guerra se inscreve e impacta na própria linguagem da poesia. A experiência da Segunda Guerra Mundial deixa marcas indeléveis, escava e corrói a linguagem, repropõe ruinas e retomadas de formas tradicionais, abre caminhos e desativa algumas operações que, se de um lado, apontam para um novo uso da linguagem poética, de outro, não deixam de ser um trabalho sobre si, que é também resistência e transformação; e, logo, um espaço do éthos e do político.

O que poderia ainda justificar e motivar a aproximação desse grupo de poetas que, à primeira vista, pode parecer tão diversificado? Um ponto relevante é o fato de esse conjunto de vozes atravessar por inteiro o século XX, Eugenio Montale nasce em 1896, no que poderia ser visto como abertura ao século XX, e Andrea Zanzotto falece em 2011, ano da morte de Osama Bin Laden e do que se chamou de Primavera Árabe. Percorrer a micro-história presente nos poemas desses autores significa, sobretudo, perpassar pela profunda transformação da sociedade italiana, que, se até a segunda guerra era uma sociedade prevalentemente agrícola, com a reconstrução no pós-guerra passa por mudanças radicais percebidas e sentidas. Como a guerra age na poética de diferentes gerações? Quais vestígios ela deixa? Como age ruinosamente no interior da linguagem poética?


